sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Número de casos de insuficiência renal dobrou no Brasil

Aproximadamente 13 milhões de brasileiros apresentam algum grau de problema renal, segundo o mais recente levantamento da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). O número é duas vezes maior do que há dez anos. Desse total, 95 mil estão em estágio grave, dependendo de hemodiálise ou na fila do transplante, e os casos vêm crescendo a um ritmo de 10% ao ano. O panorama da doença pode ser ainda mais delicado. “O número de pacientes é inferior ao que deveria ser identificado”, afirma Emmanuel Burdmann, presidente da SBN. O aumento dos casos de diabetes e hipertensão, além de uma preocupação maior com o diagnóstico da doença, são os principais fatores que levaram a um incremento desses dados. “A doença já mata mais do que o câncer de mama”, afirma a nefrologista Carmen Tzanno Branco Martins, coordenadora do Comitê de Nutrição da SBN e diretora da clínica Renal Class. Segundo dados da Sociedade de Nefrologia do Estado de São Paulo (Sonesp), 58 milhões de pessoas correm o risco de desenvolver algum tipo de problema no rim por pertencerem ao grupo de risco: têm histórico da doença na família, são idosos, obesos, diabéticos ou hipertensos. Essas duas últimas doenças, muito conhecidas dos brasileiros, respondem por 60% dos casos. A insuficiência renal é uma doença silenciosa: quando o corpo dá sinais claros e visíveis de que algo está errado em geral o órgão já perdeu 50% de sua capacidade. Por este motivo, 70% das mortes por insuficiência renal acontecem antes mesmo do diagnóstico, conforme estudo da Fundação Pró-Renal, entidade filantrópica que dá assistência a pacientes crônicos. O rim funciona como um filtro do corpo, removendo sais e outras substâncias que estejam em quantidade excessiva, como a água. Esse órgão, que tem o tamanho de um punho fechado, também é responsável pelo controle da pressão arterial e pela produção e liberação de glóbulos vermelhos pela medula óssea. Faltam vagas e doadores Outro fator que contribui para o alto índice de mortalidade da doença é a falta de vagas para a realização de hemodiálises. Seis mil pacientes por ano não têm acesso ao tratamento ambulatorial que seria fundamental para mantê-los vivos. “Noventa por cento da população com a doença fazem tratamento pelo Sistema Único de Saúde. E a quantidade de clínicas disponíveis é a mesma há muitos anos. Deveríamos estar fazendo hemodiálise em trezentas mil pessoas”, alerta Burdmann. “Com a hemodiálise, o paciente ganha tempo de vida. Ele pode esperar pelo transplante de forma mais tranqüila e mesmo se não der certo, pode voltar ao tratamento”, avalia a Carmen. A máquina realiza o trabalho que deveria ser feito pelo órgão doente, enquanto o paciente aguarda por um novo rim. A fila de espera, no entanto, aumenta a cada ano. De acordo com o levantamento realizado no primeiro semestre de 2009 pelo Ministério da Saúde, 31.270 pessoas faziam parte dela. No mesmo período, foram realizados 1.237 transplantes. É possível prevenir Nem todo caso de doença renal leva o paciente à insuficiência. Por isso, a grande frente de batalha dos especialistas está na prevenção e no diagnóstico precoce. Diabéticos e hipertensos devem manter suas taxas controladas, a fim de evitar que um agravamento dessa doença possa levar à perda da função renal. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Fundação Oswaldo Cruz e do Centro de Controle do Diabetes da Bahia conduziram uma pesquisa que revelou que 76% dos diabéticos não conseguem manter as taxas glicêmicas adequadas. A recomendação dos médicos é a mesma para todos, inclusive para os que não têm essas doenças: a partir dos 55 anos, toda pessoa deve fazer exames de urina para detectar a presença ou não de albumina e também a dosagem da creatinina no sangue. Duas medidas simples que podem evitar a insuficiência e até a um quadro crônico. “Quem faz parte do grupo de risco deve fazer esses exames já a partir dos 30 anos”, recomenda a nefrologista Carmen Tzanno. Dia mundial do rim Toda segunda quinta-feira do mês de março comemora-se o dia mundial do rim. Neste ano, a data será celebrada neste dia 11. A campanha de 2010 tem como tema “Proteja seus rins, controle o diabetes”, na tentativa de evitar que novos casos apareçam por conta desse problema, que é causador número 1 de doenças renais nos Estados Unidos. No Brasil, a diabetes é a segunda causa da insuficiência do rim, atrás apenas da hipertensão.

Carambola na Insuficiência Renal Crônica


A fruta carambola (Averrhoa carambola) pertence à família das oxalidaceae. Acredita-se que tenha se originado no Sri-Lanka e nas ilhas Molucas, mas vem sendo cultivada no sudeste da Ásia e Malásia por vários séculos e aclimatada em vários países tropicais como o Brasil. Fatias cortadas transversalmente possuem a forma de estrela, que lhe dá o nome na literatura inglesa de “star fruit”. Pode ser consumida in natura, em sucos e sua polpa pode ser utilizados para doces, vinhos, licores e sobremesas.
Em trabalhos iniciais, esses sintomas foram descritos em pacientes renais crônicos submetidos a tratamento dialítico. Os sintomas incluem soluços, vômitos, paresias (disfunção ou interrupção dos movimentos de um ou mais membros) e formigamento de membros superiores e inferiores com perda da força muscular, vários distúrbios da consciência em graus variados, como agitação psicomotora, confusão mental, convulsões, com alguns pacientes evoluindo para óbito, a maioria em tratamento dialítico. Porém, há relatos de casos de pacientes com insuficiência renal crônica ainda em tratamento conservador que apresentaram esses sintomas, alguns também evoluindo para óbito.
Os sintomas podem aparecer tanto com o consumo de poucas fatias da fruta como com maiores quantidades. O tempo de aparecimento dos sintomas pode variar de 2 a 12 horas e também está associado à predisposição dos pacientes, idade, quantidade consumida, bem como a quantidade de oxalato presente em cada fruta e o tipo de carambola consumida.
Pacientes com insuficiência renal, mesmo em tratamento conservador, devem ser alertados para não ingerir carambola. Tanto a equipe médica e principalmente os nutricionistas, devem estar envolvidos no tratamento e seguimento destes pacientes.


Referências:
Neto MM, Nardin MEP, Vieira-Neto OM, et al. J Bras Nefrol 2004;26(4):228-232
Neto MM, Costa JAC, Garcia-Cairasco N. et al. Nephrol Dial Transplant (2003) 18: 120–125.
Neto MM, Robl F, Netto JC. Intoxication by star fruit (Averrhoa carambola) in six dialysis patients? (Preliminary report). Nephrol Dial Transplant 1998; 13: 570–572
Chang JM, Hwang SJ, Kuo HT et al. Fatal outcome after ingestion of star fruit (Averrhoa carambola) in uremic patients. Am J Kidney Dis 2000; 35: 189–193
Morton JF. Fruits of Warm Climates. Flair Books, Miami, FL; 1987: 125–128

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tratamento psicológico em pacientes de hemodiálise

As doenças crônicas têm recebido grande atenção dos profissionais de saúde nas últimas décadas pelo fato do importante papel desempenhado na morbimortalidade da população mundial. Entre essas doenças está a insuficiência renal crônica, considerada uma condição sem alternativas de melhoras rápidas, de evolução progressiva, que causa problemas médicos, sociais e econômicos (Martins & Cesarino, 2005).

A doença renal é considerada um grande problema de saúde pública, porque causa elevadas taxas de morbidade e mortalidade e, além disso, tem impacto negativo sobre a qualidade de vida relacionada à saúde, que é a percepção da pessoa de sua saúde por meio de uma avaliação subjetiva de seus sintomas, satisfação e adesão ao tratamento (Martins & Cesarino, 2005). Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, no mundo, cerca de 1,2 milhão de pessoas encontram-se sob tratamento dialítico. No Brasil, são aproximadamente 54,5 mil pessoas, destas, 48.875 em hemodiálise e 5.649 em diálise peritoneal. O número de pacientes em programa dialítico cresce no Brasil à média de 10%, às custas de uma incidência de mais de cem pacientes novos por milhão de habitantes/ano (Vieira, Gomes, Frota, Andrade, Vieira, Moura & Vieira, 2005).

A insuficiência renal crônica é o resultado final do comprometimento da função renal por diversas doenças que acometem os rins, de maneira rápida ou lenta e progressiva, que tornam o rim incapaz de realizar as suas funções. O ritmo de tal progressão depende da doença original e de causas agravantes, como hipertensão, infecção urinária, nefrite, gota e diabetes (Kusumota, Rodrigues & Marques, 2004). Geralmente, quando surge uma doença renal, ela ocorre nos dois rins, raramente atingindo um só. Quando o rim adoece por uma causa crônica e progressiva, a perda da função renal pode ser lenta e prolongada (Martins & Cesarino, 2005).

A adesão ao tratamento da doença crônica significa aceitar a terapêutica proposta e segui-la adequadamente. Vários fatores influenciam a adesão, tais como a característica da terapia, as peculiaridades do paciente, aspectos do relacionamento com a equipe multidisciplinar, variáveis socioeconômicas, entre outras (Rapley, 1997, citado por Kurita & Pimenta, 2003).

Para Cesarino e Casagrande (1998), a Insuficiência Renal Crônica e o tratamento hemodialítico provocam uma sucessão de situações, para o paciente renal crônico, que compromete, além do aspecto físico, o psicológico, com repercussões pessoais, familiares e sociais. Por isso, além do acompanhamento médico às doenças renais para prolongar o bom funcionamento do rim, mesmo com certos graus de insuficiência (Martins & Cesarino, 2005), é de fundamental importância o atendimento psicológico.

O atendimento e tratamento dos aspectos psicológicos em torno do adoecimento – que se dá quando o sujeito humano, carregado de subjetividade, esbarra em um real, de natureza patológica, denominado doença, presente em seu próprio corpo – produz uma infinidade de aspectos psicológicos que podem se evidenciar no paciente, na família ou na equipe de profissionais (Simonetti, 2004).

A pessoa com insuficiência renal crônica vivencia uma brusca mudança no seu viver, convive com limitações, com um pensar na morte, com o tratamento doloroso que é a hemodiálise (Cesarino & Casagrande, 1998). A hemodiálise consiste na diálise promovida por uma máquina, que filtra o sangue fora do organismo, é realizada em média três vezes por semana, num período de três a cinco horas por sessão, dependendo das necessidades individuais (Kusumota, Rodrigues & Marques, 2004). Sendo assim, o tratamento hemodialítico é responsável por um cotidiano monótono e restrito, e as atividades desses indivíduos são limitadas após o início do mesmo, favorecendo o sedentarismo e a deficiência funcional, fatores que se refletem na vida diária do paciente (Martins & Cesarino, 2005).

O desenvolvimento de doenças crônicas e incapacidades na vida adulta são associados à deterioração, à redução de competências, ao aumento da necessidade de ajuda, à dor física e emocional resultante em perda da independência e ao aumento de necessidade de assistência (Gignac & Cott, 1998).

Lima (1989, citado por Cesarino & Casagrande, 1998) afirma que os pacientes com insuficiência renal crônica acabam tornando-se pessoas desanimadas, desesperadas e, muitas vezes, por estas razões ou por falta de orientação, acabam abandonando o tratamento ou não dando importância aos cuidados constantes que deveriam ter. É necessário estimular as capacidades a se adaptarem de maneira positiva ao novo estilo de vida, assumindo o controle de seu tratamento, de sua vida e, conseqüentemente, melhorando seu ajustamento (Resende, 2006).

O ajustamento pode ser biologicamente definido como uma resposta a uma mudança no ambiente que permite ao organismo tornar-se mais adaptado àquela mudança. Esta definição tem uma dimensão temporal, uma vez que considera que o ajustamento acontece com o passar do tempo. Em psicologia, o conceito de ajustamento refere-se basicamente a um estado desejável (Brennan, 2001, citado por Sharpe & Curran, 2006).

Ryff (1989) propôs um modelo multidimensional de bem-estar psicológico como sinônimo de ajustamento, uma condição do self relacionada a seis domínios do funcionamento psicológico: ter uma atitude positiva perante si próprio e sua vida passada (auto-aceitação); ter metas e objetivos que confiram significado à vida (propósito na vida); estar apto a lidar com as exigências complexas da vida diária (domínio sobre o ambiente); ter um sentido de desenvolvimento contínuo e auto-realização (crescimento pessoal); possuir vínculos de afeto e confiança com os outros (relações positivas com os outros); e estar apto a seguir suas próprias convicções (autonomia).

A auto-aceitação significa reconhecer e aceitar características positivas e negativas. O sentimento de aceitação gera estima, confiança e segurança em si e nos outros (Ryff, 1989). A forma como o indivíduo se vê e se descreve, suas crenças sobre como é visto pelos outros, a similaridade que percebe entre o que é e o que acredita que os outros pensam dele e o grau em que valoriza suas competências em comparação com os outros são forças orientadoras para os esforços de adaptação (Leão Júnior & Resende, 2004).

É necessário que a pessoa com alguma incapacidade aceite sua condição, como relata Frankl (1990), já que mesmo diante de adversidades e de sofrimento é possível encontrar sentido. O autor afirma que é importante encontrar sentido no sofrimento para que a pessoa consiga superá-lo da melhor forma possível. Tirar lições positivas das experiências dolorosas faz a pessoa crescer na dimensão mais profunda que um ser humano pode alcançar: dar sentido à sua dor, por pior que ela possa parecer. "Sempre e em toda parte, a pessoa está colocada diante da decisão de transformar a sua situação de mero sofrimento numa realização interior de valores" (Frankl, 1999: 68).

Janoff-Bulman e Frantz (1997, citados por Pakenham, 2005) propuseram que a adaptação positiva em face da adversidade envolve uma tentativa de encontrar sentido num evento traumático e achar algum benefício nesta experiência. A pessoa percebe que há sentido em sua vida presente e passada, tem crenças que dão propósito à vida, acredita que a vida é significativa e, com todos os obstáculos, ainda encontra motivos para continuar vivendo (Ryff, 1989).

O sentido de vida habilita a pessoa a manter sua saúde mental e sua integridade ainda que em condições adversas, como no caso de pessoas que viveram em campos de concentração. A busca e a realização do sentido pessoal representam uma nova perspectiva de promoção de bem-estar, de enfrentamento e de adaptação, principalmente para as pessoas em condição de fragilidade, uma das poucas áreas em que o indivíduo experimenta uma continuidade no crescimento pessoal, mesmo vivendo as perdas e o declínio físico (Freire & Resende, 2001).

Borges e Martins (2001) realizaram uma pesquisa com pacientes renais crônicos atendidos em uma clínica de hemodiálise de São Paulo através de entrevistas semidirigidas com 5 pessoas. Os resultados indicaram que as pessoas relatam sentir várias perdas: a) ocasionadas indiretamente pela doença, tais como perdas físicas, e as interacionais, ou seja, perda da visão, da capacidade de realizar algumas atividades, afastamento de amigos, etc; b) perdas que não estão diretamente relacionadas ao tratamento dialítico, entretanto são consideradas significativas para o paciente, já que a maioria delas é definitiva, tais como o fato de ter que comparecer às sessões de diálises semanais, de tomar uma série de medicamentos, seguir dieta rígida, restrições de atividades e conseqüentes mudanças de hábitos. Por isso a necessidade de aprender a lidar com aspectos do ambiente.

Segundo Ryff (1989), domínio sobre o ambiente significa ter competência para manejar o ambiente, usufruir as oportunidades que surgem ao seu redor, apresentar habilidades para escolher ou criar contextos adequados às suas necessidades e valores, eliminar barreiras e fazer adaptações pessoais ou no ambiente, quando necessárias. É preciso que o ambiente seja compatível com as capacidades físicas e com as competências comportamentais das pessoas.

As necessidades presentes, o ambiente e os agentes desencadeadores de estresse dependem de como os indivíduos atendem às necessidades de auto-atualização. Esta é possível quando existe um equilíbrio entre as necessidades individuais, os fatores geradores de estresse e a capacidade de adaptação às alterações do corpo e do ambiente (Perry & Potter, 1999, citados por Martins, Cunha & Coelho, 2005), particularmente quando se conta com uma rede de relações positivas.

As relações positivas com os outros engloba ter com estes uma relação de qualidade, calorosa, satisfatória e verdadeira; preocupar-se com o bem-estar do outro; ser capaz de manter relações afetuosas e agradáveis, sejam elas familiares, de intimidade ou de amizade (Ryff, 1989).

Zimmermann, Carvalho e Mari (2004) citam Kimmel (2000), que relata que o suporte social está vinculado ao aumento da sobrevida em pacientes com insuficiência renal crônica em hemodiálise. Citam também a pesquisa de Shidler e colaboradores (1998), que, estudando 50 pacientes com insuficiência renal crônica, afirmam que o suporte social não apresenta uma ação protetora maior para situações de estresse leves, mas previne ou reduz os efeitos negativos em situações de estresse elevado.

Segundo Abrunheiro (2005), o suporte social tem sido um dos principais conceitos da Psicologia da saúde, pois em situação de estresse, ou de crise, alivia e até mesmo inibe o desenvolvimento de doenças; além disso, quando o indivíduo já se encontra doente, tem um papel positivo em sua recuperação.

Andrade e Vaitsman (2002) afirmam que, segundo algumas pesquisas, a pobreza de relações sociais constitui fator de risco à saúde comparável a outros que são comprovadamente nocivos. Isso porque a condição de enfermidade, por si só, coloca os indivíduos diante de limitações, impedimentos e situações que mudam a relação da pessoa com o trabalho, com seus familiares, com amigos e parceiros, bem como abalam sua identidade. Muitas vezes, o paciente experimenta fragilização da identidade, do próprio sentido da vida e da capacidade de resolver problemas que o afetam pelo fato de tudo aquilo que organizava a sua identidade ter sido alterado de forma brusca com a presença da doença (Gibson, 1991, citado por Andrade & Vaitsman, 2002).

Nesse sentido, o apoio social poderia ser um elemento a favorecer o processo no qual indivíduos, grupos sociais e organizações passam a ganhar maior autonomia, mais controle sobre seus próprios destinos (Valla, 1999, citado por Andrade & Vaitsman, 2002).

O fator autonomia também exerce uma influência importante na vida dos enfermos. A doença faz com que algumas pessoas deixem de trabalhar, sintam-se incapazes de participar de atividades sociais, deixem de lado atividades antes rotineiras, como encontros com amigos, idas a igreja, ou seja, restringem grandemente o acesso à interação social, provocando uma sensação de suporte reduzido que interfere de forma negativa em sua saúde (Abrunheiro, 2005).

A autonomia implica ser autodeterminado e independente, mesmo que para isso se necessite de apoio para operacionalizar escolhas e às vezes até para o exercício de atividades da vida diária; tomar decisões de acordo com o que se acredita ser melhor, dentro de seus próprios padrões; e não ser influenciado por pressões sociais para pensar e agir (Ryff, 1989).

Para Pakenham (2005), pacientes com largo histórico de problemas médicos relataram benefícios ou ganhos a partir de suas adversidades, inclusive percepções de crescimento pessoal, fortalecimento de relações e mudanças nas prioridades de vida e metas pessoais.

No crescimento pessoal, a pessoa apresenta um senso de desenvolvimento e crescimento contínuo, está aberta a novas experiências, reconhece seu potencial de realização e suas mudanças refletem autoconhecimento e auto-eficácia (Ryff, 1989).

Bauer e McAdams (2004) citam Maslow (1968), que ressaltou que as pessoas são orientadas para o crescimento ou para a segurança em suas vidas e que uma orientação ao crescimento facilita o alcance de saúde psicológica e de bem-estar. Psicólogos humanísticos reivindicam que as pessoas que pensam em suas vidas predominantemente em termos de certos valores (por exemplo, inteireza, justiça, autonomia, empatia) estão no caminho do crescimento pessoal para maiores níveis de saúde psicológica e bem-estar.

Cada uma das dimensões do bem-estar psicológico articula diferentes possibilidades de mudanças individuais, encontradas quando alguém procura funcionar de maneira positiva (Keyes, Shmotkin & Ryff, 2002). Muito recentemente é que as atenções começaram a se voltar para uma terapêutica visando à qualidade de vida do paciente com insuficiência renal crônica como um fator relevante no cenário da terapêutica renal. Essa busca origina-se da constatação de que alcançar um estado de bem-estar físico e mental é possível, resultando na recuperação da autonomia, das atividades de trabalho e lazer, da preservação da esperança e do senso de utilidade destes indivíduos (Martins & Cesarino, 2005).

Desta forma, tendo em vista a necessidade de pesquisas e intervenções no que tange à diversidade inerente à realidade de pessoas com insuficiência renal crônica, acredita-se ser de fundamental importância proporcionar a presença de um psicólogo na equipe de clínicas de hemodiálise. O atendimento psicológico auxilia a quebrar tabus e preconceitos, além de incentivar as pessoas a desenvolverem suas capacidades, levando-as a verem a doença sob outros ângulos. Em outras palavras, faz parte dos esforços que devem ser empreendidos na promoção de um atendimento integral, visando proporcionar mais qualidade de vida a estas pessoas.

A partir do exposto, pretende-se relatar a experiência de intervenção psicológica em uma clínica de hemodiálise enquanto atividade de Estágio profissionalizante do curso de Psicologia. Através dos atendimentos, pretendeu-se contribuir para um melhor ajustamento de cada pessoa à sua condição de ter que conviver por tempo indeterminado com a máquina, os sintomas advindos da hemodiálise e as mudanças de vida causadas pela insuficiência renal crônica; trabalhando aspectos singulares do adoecimento, ajudando-as a fortalecerem os mecanismos de auto-regulação do self e trabalhando suas atitudes em relação ao tratamento e à vida.

Por: Marineia Crosara de ResendeI; Francisco Assis dos SantosII; Melissa Macedo de SouzaIII; Thatianna Pereira MarquesIII

IPsicóloga; Professora de Psicologia do Centro Universitário do Triângulo; Mestre em Gerontologia e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
IIPsicólogo do Centro Universitário do Triângulo
IIIPsicóloga do Centro Universitário do Triângulo

terça-feira, 29 de junho de 2010

Apresentação


Meu nome é Grimaulde Gomes, e sou jornalista. Esse é o nosso blog Rim do Feliz, onde vamos conhecer e entender a insuficiência renal, e a hemodiálise, além de tentar desfazer o mito de que a vida produtiva de um paciente de hemodiálise acaba com o tratamento. A hemodiálise é um tratamento difícil, cansativo, muitas vezes dolorido e estressante, mas é necessário para que muitas pessoas possam continuar a viver. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) , um grande número de pessoas sofre de doenças renais. Algumas apresentam doenças como diabetes e pressão alta que, senão tratadas corretamente podem ocasionar à falência total do funcionamento renal. Existem outras que quando são diagnosticadas já estão com os rins totalmente debilitados, ocorrendo neste caso o encaminhamento do paciente para a diálise. Na maioria dos casos, este tratamento acaba sendo feito para o resto da vida, caso não haja a possibilidade de se fazer o transplante.
Em todo o mundo, 500 milhões de pessoas sofrem de problemas renais e 1,5 milhão delas estão em diálise. As estatísticas revelam também que uma em cada dez pessoas no mundo sofre de doença renal crônica. De acordo com os dados, pacientes com esse tipo de doença têm 10 vezes mais riscos de morte prematura por doenças cardiovasculares. A estimativa é de que 12 milhões de pessoas no mundo morrem por ano de doenças cardiovasculares relacionadas a problemas renais crônicos.
Mais de 80% dos pacientes que fazem diálise, segundo informações da Sociedade Brasileira de Nefrologia, estão nos países desenvolvidos. Na Índia e Paquistão, por exemplo, menos de 10% das pessoas que precisam recebem algum tipo de terapia e na África quase não há acesso ao tratamento e as pessoas acabam morrendo.
O crescente número de doentes renais no Brasil já o tornou o terceiro maior mercado de hemodiálise do mundo. No Brasil a doença atinge 2 milhões de pessoas, sendo que 60% não sabem . Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, em 2005, foram 32.329 novos pacientes. A taxa de aumento de 2005 para 2006 foi estimada em 8,8%. Segundo as informações, dos 120 mil brasileiros que precisam fazer hemodiálise, apenas 70 mil estão em tratamento. Em janeiro de 2006 o número de pacientes chegou a 70.872. O número de óbitos em 2005 foi de 12.528, sendo a taxa de mortalidade de 13%.
No Brasil, 95,2% dos centros de tratamento dialítico possuem convênio com o SUS; 89,9% dos pacientes são reembolsados pelo SUS e, 12,1% dos pacientes possuem outros convênios. Os números apontam ainda que 47% dos pacientes em diálise estão na fila do transplante renal e 25% dos pacientes em tratamento, são diabéticos. Estima-se que em 2010 o número de pessoas em diálise no Brasil seja de 125 mil.
O blog é formado por matérias minhas e uma coletânea de matérias de especialistas no assunto, tanto no aspecto médico quanto social, uma vez que o paciente renal crônico vê a sua vida totalmente modificada depois de descobrir a doença. O blog é um apelo a médicos, pacientes e amigos para que conheçam mais essa doença e seu tratamento e que respeitem os nossos direitos. Antes de sermos uma atividade altamente lucrativa, que movimenta milhões não por ano, mas por mês, em todo país, somos pessoas, e não queremos ser vistos como números nem como estatísticas, mas como indivíduos que querem simplesmente ter uma vida normal.


Dessa forma, contamos com todos, renais crônicos ou não, pela luta dos direitos de todos aqueles que necessitam de um transplante de órgãos e principalmente aqueles que precisam fazer hemodiálise.
Essa é uma iniciativa da Carla, psicóloga do meu centro de diálise, o hospital Santo Antônio, em Curvelo, Minas Gerais.

Dificuldades sociais e familiares do renal crônico

O relato da experiência que apresentamos acontece na Clínica Renal Oeste no município de Chapecó Santa Catarina, que teve inicio das suas atividades em 1987, porém as atividades do Serviço Social somente tiveram inicio em 1998 a partir da Portaria 2062 decretada pelo Ministério da Saúde, a qual exige o profissional Assistente social em Clínicas de diálise.
Trabalhar com pacientes renais crônicos terminais incide em lidar com a dor, sofrimento e perdas constantes, portanto pensamos a prática social de forma interdisciplinar que vem apresentando-se como uma possibilidade de garantir uma qualidade de vida para essas pessoas.
A concepção de que o processo saúde e doença ultrapassam o aspecto biológico e envolve todo o contexto social, político e cultural do indivíduo incluindo sua família acompanham-nos desde o período de graduação na universidade, de forma que, quando tivemos oportunidade em nossa atuação profissional enquanto assistente social, em conviver com portadores de doença renal crônica (IRC), submetidos ao tratamento de hemodiálise, passamos a perceber de forma mais clara, os aspectos importantes das condições de vida dessa população que devido a sua doença, ser incurável, e o tratamento doloroso que provoca muitas limitações e alterações de grande impacto tanto na sua vida como de seus familiares.
A família necessita se reorganizar e também se adaptar, pois o paciente necessita de cuidados. Os papéis e funções devem ser repensados e distribuídos de forma que auxilie o paciente na elaboração de sentimentos confusos e dolorosos pelo processo do adoecer.
Na maioria das vezes, a rotina do paciente se restringe a consultas médicas, sessões de hemodiálise três vezes por semana por um período de 4 horas a sessão estando restritos a uma dieta e principalmente limitados a execução de tarefas que requeiram esforços físicos, pois sentem-se muito fracos e cansados. Muitos que são chefes de família e donas de casa se submetem a algumas atividades artesanais para manter o sustento da casa e da família.
Após iniciarem o tratamento, a vida social dos pacientes se altera de tal forma que ficam impedidos de viajar devido ao tratamento, deixam de visitar amigos, vizinhos, sentem-se inválidos e muitas vezes sem assunto a não ser falar de sua própria doença.

Na realidade as pessoas submetidas à hemodiálise preocupam-se com problemas muito reais, geralmente sua condição clínica é imprevisível e sentem muitas reações adversas ao tratamento e as medicações, a maioria destes apresentam depressão por viver como um doente crônico e ter medo de morrer.
Com este artigo pretendemos descrever nossa experiência profissional e algumas repercussões psicossociais causadas pela doença crônica na família.
Acreditamos que, a atuação do Serviço Social junto ao paciente em tratamento de hemodiálise, se constitui no acompanhamento do paciente no sentido de enfrentar a doença e orientar paciente e família sobre todo o processo de tratamento, e principalmente na garantia de Direitos.



DISCUSSÃO

O trabalho do Serviço Social na saúde, especificamente no atendimento ao paciente portador da doença renal crônica terminal, visa cada vez mais dar assistência integral ao paciente, aprimorando as técnicas e processos de trabalho, fundamentais para mediar os conflitos do paciente e sua família.
Quando uma pessoa possui uma doença incurável que requer tratamento de longa duração e que impõem limitações, provoca muitas alterações de grande impacto que repercutem na vida do paciente, por isso é necessário estarmos atentos na abordagem ao paciente e a família de maneira a evitar equívocos em seu tratamento, a adequada seleção de estratégias para obter o comportamento desejado, a adequação da informação a capacidade de compreensão do doente, tais fatores podem auxiliar a adesão do paciente ao tratamento, pois temos que levar em consideração que a cultura é um fator que também pode influenciar na adesão ao tratamento, pois possuem uma compreensão baseada em seu próprio sistema de crenças.

O Dr. me disse: Você tem um problema renal, terá que fazer hemodiálise”. De jeito nenhum, nunca hemodiálise eu não faço, antes disso eu me mato. Eu não faço’. Na hora me deu um choque né! Um desespero (...) Eu pensei ‘hemodiálise, puxa vida, eu vou morrer. Então eu morro antes’. Quando me disseram que eu ia fazer hemodiálise eu achei que ia morrer.
(paciente aposentado)




A fala desse paciente exemplifica a reação do abalo psicológico mencionado por Lima1 et al. diante da notícia de uma doença crônica:

Quando o diagnóstico é realizado e posta a situação de cronicidade (segundo momento), a reação geral é um sentimento de caos, de impotência. A família sente-se confusa, conturbada. Um terceiro momento surge. Esse marcado por reações no que concerne à gravidade da doença e à sua irrersibilidade. Enfim, quando a invalidez, seja ela mínima ou grave, é admitida, pode sobreviver uma depressão apoiada simultaneamente numa agressividade intensa ou em reações de luto (p.87).

A experiência como profissionais atuantes ao cliente renal no contexto da hemodiálise, nos permite perceber que não só o paciente é abalado pela doença, mas também toda sua rede de relações que estabelece principalmente o ciclo familiar que se esforça para se adaptar a situação, pois esta modalidade terapêutica apresenta-se como um evento inesperado pelo paciente que o remete a uma relação de dependência a uma equipe especializada, a vários medicamentos diários e principalmente a dependência a uma máquina para sobreviver.
Quando uma pessoa, que sustenta a família, é acometida pela doença renal, ocasiona interferência no trabalho tendo que se afastar dele, alguns muitas vezes sem qualidade de segurados pela Previdência social ficam a mercê, tendo que ser sustentados por familiares essa falta de recursos econômicos, e os gastos com a medicação, exames que muitas vezes não são fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) consequentemente ficam desesperados e desanimados com vontade de abandonar o tratamento.
Cabe ao Assistente Social nesta perspectiva mediar junto aos gestores de saúde, possibilidades de atender esse paciente que possui suas particularidades por ter uma doença séria e que requer constante controle.
No contexto das atribuições e dos desafios que vem sendo reiteradamente colocados ao serviço social é notório que temos que repensar a cada dia nossas praticas profissionais para atender e dar respostas condizentes aos nossos usuários.
Devemos observar no entanto que construir esse pensamento do Serviço Social na área da saúde impõem coloca-lo no âmbito da discussão interdisciplinar permitindo dar concretude, direcionalidade e visibilidade à profissão. Essa discussão torna-se fundamental para impulsionar a transformação das práticas profissionais na área da saúde como afirma Merhy2:

Nestes muitos anos de militância e acumulação de experiências vivenciadas na busca da mudança do modo de produzir saúde no Brasil, aprendemos que: ou esta é uma tarefa coletiva do conjunto de trabalhadores de saúde, no sentido de modificar o cotidiano do seu modo de operar o trabalho no interior dos serviços de saúde, ou enormes esforços de reformas macro-estruturais e organizacionais, nas quais temos metido, não servirão para quase nada.


Retomando sobre atribuições, cabe ao Médico prescrever a medicação, a Enfermeira orientar sobre o tratamento, a Nutricionista sobre a dieta e a ingesta hídrica e ao Serviço Social o papel de proporcionar informação e esclarecimento quanto ao quadro clínico do paciente promovendo seu bem estar; Traduzir aos demais membros da equipe de trabalho os aspectos sociais do paciente para haver melhor condução nas intervenções profissionais; Levantar perfil do paciente com IRC; Solicitar medicamentos através de processos encaminhados a Secretaria Estadual de Saúde; Entrevistar e Orientar pacientes em início de tratamento; Viabilizar o transporte para tratamento; Realizar visitas domiciliares; Agendar consultas com outras especialidades; Encaminhar para exames de Transplante Renal; Organizar transferência de pacientes para outras clinicas; Controlar o protocolo de transplante com equipe de enfermagem; Encaminhar o paciente para acessar seus recursos sociais ou previdenciários; Realizar atendimento ambulatorial e hospitalar.
Outro compromisso que temos com o paciente é o de planejar intervenções educativas sobre higiene, alimentação e aderência ao tratamento para que o próprio paciente também assuma os cuidados e o controle sobre seu próprio tratamento.
Ao considerar a prática do assistente social junto aos pacientes renais e seu grupo familiar, é oportuno destacar os desafios encarados pelo profissional na sistematização de suas ações baseadas num referencial teórico metodológico que fortaleça o usuário no acesso e no processo de mudanças da realidade na qual se insere, capacitando-os para ampliação dos direitos e efetivação da cidadania.
Como forma sistematizada de intervenção, o profissional poderá a partir de sua concepção política, operacionalizar os elementos que darão suporte teórico para a sua práxis, no sentido de criar possibilidades aos pacientes, a compreender a relação homem/mundo tornando-se capazes de desvelar as determinações da realidade imediata onde os problemas percebidos como síntese de múltiplos fatores que precisam ser objeto de intervenção.
O Assistente social no campo da saúde requer uma análise muito mais ampla da realidade social desses sujeitos desprovidos socioeconômicos para manter-se enquanto pessoas titulares de direitos já que a própria patologia os deprimem e desmotiva pelo tratamento imposto.
Pressupõem-se então que esses indivíduos estão inseridos numa dinâmica contraditória em que o antagonismo da classe é visivelmente presente na sociedade deixando óbvio a igualdade perante a lei, mas também a desigualdade das relações sociais. Nessa perspectiva um dos desafios claramente percebido no cotidiano diz respeito a falta de prioridades no que concerne aos recursos disponíveis ou seja, o acesso aos benefícios assistenciais que dêem suporte ao tratamento do doente.
No que diz respeito a família, a sua participação em todo o processo do tratamento torna-se essencial, uma vez que o paciente se sentirá apoiado e seguro para dar continuidade ao tratamento. Trabalhar com família nessa perspectiva é sobretudo, trabalhar as relações tendo em vista reforçar os vínculos afetivos, esclarecendo todo o processo de tratamento do paciente e possíveis intercorrências, assim como promover paralelamente reflexões acerca dos aspectos sociais que envolvem a vida do paciente.
Nesse sentido ressalta-se a necessidade do Assistente Social propiciar condições de esclarecimento e comunicação para seus usuários compreendendo a individualidade do ser social e seus determinantes estruturais diante das relações sociais.
Tais considerações se fazem necessárias no trabalho dos profissional a partir do momento que resgata os determinantes históricos que estão presentes nas particularidades de cada paciente, que não podem ser vistas apenas em sua representação imediata, mas convertidos em situações concretas, a partir da construção de suas determinações por uma teia de mediações suficientemente capazes de recuperar a importância do individuo sem perder de vista a dimensão da totalidade.


CONCLUSÃO

Durante o desenvolvimento deste artigo, constatamos a escassez de pesquisas que valorizem a perspectiva do indivíduo com IRC e seus familiares, especialmente no que se refere à questão da intervenção no serviço social nesta temática.
Através deste levantamento, pôde-se entrar em contato com as reações que a doença crônica traz para a família. Tal constatação permite concluir que o profissional assistente social se faz importante, pois auxiliará ao promover orientação e suporte para adaptação, uma vez que o adoecimento crônico acarreta situações de crise, limitações e perdas que irão influenciar na estrutura familiar. Utilizamos também de algumas narrativas de pacientes buscado compreender, o significado por eles atribuídos à hemodiálise e o impacto dessa modalidade em suas vidas.
Outra constatação é que infelizmente a atualidade nos mostra que muitos profissionais de saúde, ao invés de direcionarem sua atenção para a pessoa doente, focalizam a doença da pessoa , perpetuando assim o reducionismo do modelo biomédico. O desafio é justamente libertar os profissionais da saúde dessa preocupação mórbida em relação aos processos do corpo e a visão técnica reducionista e desumanizante do tratamento.
Concordamos com Barbosa3 et al. quando ressaltam a necessidade dos profissionais de saúde compreenderem os pacientes em programa de hemodiálise, como um tratamento considerado inevitável, inadiável e que tem conseqüências diretas por toda a vida do paciente, evitando assim serem agentes desencadeadores de novos conflitos e tensões.
Todas as pessoas possuem a sua história de vida. A relação entre profissionais e o individuo doente é, antes de tudo uma relação interpessoal. Nesse contato, as histórias se cruzam, se encontram se completam, se confundem. Em alguns momentos, profissional e paciente constroem juntos uma nova história, uma história viva.
O assistente Social assim como toda equipe multidisciplinar deve estar atenta às necessidades da família, pois o adoecer possui para cada membro um significado que deve ser levado em consideração e o impacto da doença crônica é sentido por todos .


REFERÊNCIAS

1. Lima A.M.C, Mendonça Filho J.B, Diniz J.S.S. Insuficiência renal crônica – a trajetória de uma prática. In: Romano BW (org.). A prática da psicologia nos hospitais. São Paulo: PioneiraThomson Learning 1995:77-92.

2. Merhy E. E. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo em saúde. São Paulo: Hucitec 1997:72.

3. Barbosa J.C, Aguillar O.M, Boemer M. R. O significado de viver com a insuficiência renal crônica. Revista Brasileira de Enfermagem 1999;52(2):293-302.

4. Bravo M. I. de Souza. Serviço Social e Reforma Sanitária, lutas sociais e práticas profissionais. Rio de Janeiro: Cortez e UFRJ 1996.

5. Costa M. D. H. O trabalho nos serviços de saúde e a inserção dos (as) assistentes sociais. Revista Serviço Social & Sociedade . São Paulo: Cortez 2000;(62).

6. Cohn A. et al. Saúde como direito e como serviço. São Paulo: Cortez. 1999;(2):164.

7. Coutinho C. N. Representação de interesses, formulação de políticas e hegemonia. In Teixeira, S.F. (org.) Reforma Sanitária: em busca de uma teoria. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro:Abrasco, 1989.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

História da Diálise Domiciliária

Em 1960 o Dr. Belding Scribner a trabalhar em Seattle, Washington desenvolveu um pequeno shunt que ligava uma artéria a uma veia (o shunt arterio-venoso). Este permitia o acesso à circulação sanguínea de uma forma continuada no tempo, tornando possível a realização da diálise por tempo indefinido.

O primeiro doente a fazer diálise, era um maquinista da Boeing de nome Clyde Shields, que permaneceu em diálise durante mais de 10 anos. Logo se seguida mais 3 doentes iniciaram diálise. Com excepção de um doente que faleceu de complicações cardiovasculares alguns meses após iniciar diálise, todos os outros sobreviveram em diálise por longos anos.

Desde então era possível substituir um órgão vital de modo a sustentar a vida por um período de tempo indefinido. Isto ajudou a catapultar a diálise para a posição de um dos maiores avanços médicos do sec XX, e tornou possível para os Insuficientes Renais (IRC) a possibilidade de uma nova vida, que sem tratamento seguia o curso natural para a morte.

A história da Diálise Domiciliária (HDD) confunde-se com a história da própria Diálise
Dr. Belding Scribner

O desenvolvimento da diálise iniciou-se com apoios para investigação, de modo que fornecer diálise a mais doentes obrigou a uma recolha de fundos em outras instituições publicas e privadas. Em virtude da escassez destes recursos a entrada em diálise estava restrita apenas a alguns doentes que obedeciam a critérios muito apertados, definidos por comissões médicas e de aceitação. Foram tempos difíceis para a comunidade dos médicos que tratavam estes doentes e mais para os próprios doentes.

Uma jovem, de nome Carolina de 16 anos, que sofria de lúpus eritematoso e tinha sido rejeitada para fazer diálise, levou Dr Scribner e o seu Engenheiro Dr Babb a encetarem uma corrida contra o tempo afim de prepararem uma máquina e tratamento de águas que pudesse ser levada para casa, que fosse segura e permitisse ser operada pela mãe de Carolina. Isto foi bem sucedido, e a Carolina foi colocada a fazer diálise no domicilio, onde fez diálise durante mais de 5 anos.

Clyde Shields

Depois desta experiência, outras se seguiram, e rapidamente se apercebeu que fazer diálise em casa era possível, seguro e alem do mais, permitia uma melhor reabilitação. Dado ser mais económica, ir para casa permitia oferecer diálise a mais doentes. Popularizou-se então a expressão "ir para casa ou ser transplantado".
Rapidamente cresceram os programas de diálise em casa. Em Seattle é transformado um motel num local de ensino para diálise domiciliária, o Coach House Motel. Ai foram ensinados muitos doentes de todo os EUA e de alguns países da Europa e Ásia.

A Jovem Carolina

No inicio da década de 70, uma grande parte dos doentes IRC praticavam diálise no domicilio, 40% nos EUA, 60% na Inglaterra, 50% na Austrália e Nova Zelândia e cerca de 20% em muitos Países da Europa. Portugal passou ao lado deste fenómeno.

Em 1972/1973 o Governo dos EUA aprova a comparticipação da diálise, e a partir daqui surgem por todo os EUA centros de diálise privados, o que veio a permitir o acesso quase universal ao tratamento, mas por outro lado desincentivou a ida para o domicilio. A Diálise Peritoneal, outra modalidade de diálise no domicilio, que era mais simples e fácil de aprender começou a estar disponível. Por estas e outras razões, a diálise domiciliária entrou num franco declínio, atingindo menos de 1% da população em diálise no ano de 2004. Apenas a Austrália e a Nova Zelândia dos Países mantiveram números expressivos de doentes no domicilio, entre os 25 e os 50%.


Gráfico dos pacientes que faziam diálise em domicílio na Austrália e Nova Zelândia.

Evolução dos pacientes de diálise em domicílio

Apesar deste declínio sempre existiram regiões em diferentes Países do mundo que mantiveram um grande numero de doentes em diálise no domicilio, confirmando os melhores resultados com esta modalidade de tratamento, como seja a melhor Reabilitação, uma mais baixa taxa de hospitalizações e uma mais baixa mortalidade.

Nos últimos anos, principalmente com novas máquinas mais apropriadas ao domicilio, esta modalidade de diálise parece estar em franca expansão, e as grandes companhias de diálise estão a ver nela um segmento de mercado aonde vale a pena investir.

O ressurgimento da diálise no domicilio está em curso.